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Devemos usar ácido tranexâmico no traumatismo cranioencefálico?

19/11/2019
09:13

Em 2018, publicamos aqui no portal a respeito das mudanças na décima edição do Advanced Trauma Life Support (ATLS 10), que incluíram a indicação do uso de ácido tranexâmico (TXA) no controle de sangramento na abordagem inicial ao trauma.

O estudo CRASH-2, que foi essencial para esta mudança, demonstrou que a administração do TXA diminuiu a mortalidade de pacientes com hemorragia traumática. Dado que menos de 250 dos 20.000 pacientes tiveram lesão cerebral traumática isolada (TCE), não estava claro se o TXA teria benefícios semelhantes nessa população. Neste contexto, surgiu o estudo CRASH-3, buscando responder a seguinte pergunta: Quais os efeitos do TXA nos pacientes com TCE?


Ácido tranexâmico no TCE

O CRASH-3 foi um estudo grande conduzido em 29 países por 6 anos. Aproximadamente 9200 pacientes com TCE isolado (Escore de Glasgow Coma Scale [GCS] <13 ou qualquer sangramento intracraniano na tomografia computadorizada) que foram tratados dentro de 3 horas da lesão foram randomizados em dois grupos: um grupo com TXA (1 g em bolus de 10 min seguido de 1 g em bomba por 8h) e outro com placebo.


No geral, não houve diferença significativa na morte relacionada ao traumatismo craniano aos 28 dias (o desfecho primário; razão de risco [RR], 0,94; intervalo de confiança de 95%, 0,86-1,02). Este é um ponto importante e que gerou algumas discussões entre especialistas, dado que estatisticamente o estudo foi negativo (valor-p ligeiramente acima de 0,05). Provavelmente, isso reflete a inclusão de pacientes moribundos, que diluíram o benefício do TXA.


No entanto, análises de subgrupos mostraram reduções na mortalidade com TXA em pacientes com lesão leve a moderada (GCS> 8; RR, 0,78) e naqueles com pupilas reativas bilateralmente (RR, 0,87). As análises secundárias mostraram melhores resultados com o tratamento em pacientes com lesão leve a moderada. Um ponto importante é que o TXA não mostrou melhora nos pacientes com lesões graves. Além disso, não houve nenhuma diferença no grau de incapacidade dos sobreviventes ou eventos tromboembólicos entre os grupos TXA e placebo.

Conclusões

O artigo concluiu que “o TXA é seguro em pacientes com TCE e que o tratamento em até 3 horas após a lesão reduz a morte relacionada ao TCE. Os pacientes devem ser tratados o mais rápido possível após a lesão.”


Em comentário a respeito do estudo, a equipe do New England Journal of Medicine (NEJM) escreveu que não esperavam que o TXA diminuísse a mortalidade nos pacientes mais graves. Ressaltou que, de forma tranquilizadora, esses dados também confirmam os achados do CRASH-2 de melhores resultados com tratamento mais rápido e sem aumento de complicações trombóticas após a administração de TXA.


Embora alguns médicos possam discordar com base no resultado primário (pelos motivos que comentamos acima), eles sugeriram o uso do TXA em pacientes com sangramento intracraniano e TCE leve a moderado. Aguardamos os possíveis reflexos deste estudo em novas diretrizes. Será que esta recomendação estará no ATLS 11?

Fonte: https://pebmed.com.br/devemos-usar-acido-tranexamico-no-traumatismo-cranioencefalico/

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